"Os sons daquela manhã sopraram em meu coração alguma inspiração.
Brincamos no jardim, nos movimentamos.
O movimento é essencial para as crianças dessa idade.
Sugiro que as crianças que me estendem a mão possam brincar, desenhar, escrever alguma palavra ou pequena frase;
alguns poderão escrever pequenos textos ou poemas.
O que importa é que esse tempo seja vivido, seja tempo kairós, que os marque e aproxime de visto próximo encontro físico."
Helena Würker

A carta que segue foi escrita aos pais da minha classe de segundo ano na Escola Waldorf Rudolf Steiner, no primeiro momento da quarentena, quando me encontrei suspensa no ar pelo fato de nem ter podido me despedir dos meus alunos, assim como a incerteza de quando seria o retorno. Encontrei no tema do segundo ano o apoio para puxar o fio da meada e conseguir achar um primeiro passo para o trabalho que eu seguiria.

Ao me debruçar sobre reflexões a respeito do Tempo, percebi o quanto todos estavam surpresos de como esse presente que ganhamos na vida estava mudando de percepção. Segui por relatar o estudo que estávamos fazendo antes do isolamento, procurando despertar nas famílias o envolvimento que os alunos estavam ao abrir os olhos para essa primeira percepção sobre o tempo, sua atuação na natureza. E termino aproximando os pais da parceria que nos une, agora com outros laços, não menos importante que antes, só diferente. É um convite ao trabalho conjunto nesse momento tão único em nossas vidas.

Desejo que esse texto chegue a outros como opção de encontrar na palavra escrita a forma de alicerçar uma base humana e feliz, assim como me ajudou a construir um caminho que trilho até hoje, com muita união do grupo!


Do calor dessas pequeninas mãos
Helena Würker

A cadeira de onde escrevo é bem diferente do local em que passo todas as manhãs há mais de vinte anos, a sala de aula como professora de classe. As aulas acabavam de começar e eu estava bem animada com o assunto principal do segundo ano, com o qual minha classe percorreria um novo caminho. O tema "tempo" é preenchido por olhares para o sol e para as nossas sombras; para as diversas formas de contá-lo. Mas, primeira e principalmente, dirigimos nosso olhar para a manifestação do tempo na natureza, em especial, nas árvores. No final chegamos ao tempo cronológico, passamos a contar o tempo.

Na Grécia Antiga os gregos dividiam o tempo entre Chronos e Kairós. Chronos é aquele que cronometra, conta ordenadamente. É o tempo do adulto, com seus compromissos e sua falta de tempo. Kairós, por sua vez, aponta para momento presente, em que o imponderável pode acontecer. Esse é o momento certo, oportuno. Como lembra Miguel Reale, Kairós é: "O momento em que a criança vive, despreocupada em seus afazeres, fazendo por fazer, mas não por descaso, e sim como se seguisse um sentido maior, uma ordem cósmica. Nessa vivência pura, pacificada da noção do tempo, a criança tem apenas o instante que passa, como se fosse um destempo, fluído e transparente, sem nenhuma nota de espacialidade, sobretudo da imanente à seriação preocupante de passado, presente e futuro."

Este autor segue refletindo sobre o tempo, escreve que o coração é o relógio do tempo e discorre sobre toda a gama de sentimentos relacionados a ele e como o sentimos em sua qualidade, dando um novo sentido à quantidade. Reale reluta em utilizar o termo instantaneidade, com medo de parecer transitório. Mas, a meu ver, instantaneidade define amplamente o suspiro, uma breve pausa, como um êxtase musical. Ou seja, o tempo enquanto inespacial pois perde sua relação com o espaço e paira no ar, suspendido. Talvez seja justamente aí que haja uma chance de abrir um novo leque de possibilidades para o futuro. Arrisco, inclusive, a pensar que esse é momento que estamos vivendo agora em nossa humanidade; já voltarei a isso.

Dedico agora algumas linhas para compartilhar com vocês o que compreendo por educação. Educação é a arte que prepara cada qual para que possa ocupar seu lugar no mundo, a partir de suas características e habilidades únicas. É uma arte de encontro entre seres humanos, que apostam diariamente na disposição em se conhecer. É esse conhecimento que permite nos apropriar do tempo.

O processo de apropriação do tempo consiste, para nossas crianças de 7, 8 anos, em transportá-las do sentido de viver o tempo ao de contar o tempo. Transportar é levar de um lugar ao outro, para isso precisamos sair de onde estão. Há que aproximar seus olhos para a natureza. Para isso observar as árvores, nas quais a passagem do tempo é claramente visível, torna o percurso interessante e seguro.

Minha animação vem exatamente dessas copas, troncos, galhos e folhas. Aprecio por demais observar as árvores, tentar ler o que elas nos ensinam com a formação do caule, sobre a profundidade de suas raízes, com o farfalhar das folhas ao vento ou o abandono dos galhos no inverno. Enfim, contar sobre as árvores é, para mim, falar de alma a alma.

Nesse momento, os pequenos passeios tornam-se enormes, do tamanho de toda a emoção que vivemos juntos. Vemos como o tempo é tão relativo e um curto espaço e pequeno tempo cronológico podem parecer, ou realmente o são, quase infindáveis pois preenchem todo o nosso peito de alegria. Estar, pela quarta vez, diante de uma sala de segundo ano, impulsiona-me à criação, a gerar o novo, ao compromisso de fazer diferente, pois esse encontro é único. Eu sou uma nova Helena, nutrida e modificada por cada uma dessas crianças que me estendem a mão a cada amanhecer. Sim, elas me estendem a mão para que eu possa organizar o nosso dia, para que nosso encontro seja sempre frutífero.

Sim, como árvores nos preparamos para frutificar. E agora, no desafio que se impôs a cada um de nós, seguimos juntos, de uma nova maneira. De novo, temos que criar. Eu e eles, e inserimos, mais do que nunca, vocês, pais em nossa dinâmica de sala. Estamos agora no interior de nossos lares, recolhidos no mais íntimo de nosso núcleo familiar, por um tempo incerto e com novas demandas, muitas vezes nunca dantes imaginadas. Como viver esse tempo que nos cabe?

Como responder ao desafio de criar uma nova rotina e aproveitar os momentos ímpares que construirão a base do futuro que logo ali, ao dobrar a esquina do tempo, se revelará?

A pergunta que ressoa em mim é: Como reinventar e vivificar o significado do tempo ou de qualquer outro conteúdo para os meus alunos? Será que o que se pede é seguir o padrão da aula e repassar aos pais, como uma cartilha a ser seguida? Voltei o olhar para a copa das árvores, para a lembrança do nosso passeio, para o rolar na grama do jardim, para o dia em que o sol brilhava e que estávamos muito felizes. Foi um lindo encontro.

Os sons daquela manhã sopraram em meu coração alguma inspiração. Brincamos no jardim, nos movimentamos. O movimento é essencial para as crianças dessa idade. Sugiro que das crianças que me estendem a mão possam brincar, desenhar, escrever alguma palavra ou pequena frase; alguns poderão escrever pequenos textos ou poemas. O que importa é que esse tempo seja vivido, seja tempo kairós, que os marque e os aproxime de nosso próximo encontro físico. Para isso podemos pensar em ainda mais coisas no decorrer do tempo – olha ele aí de novo!

Estou aqui com vocês, trabalharemos juntos. Vamos dividir sugestões entre todos, as ideias que surgirem da vivência diária podem contribuir muito ao desafio que se desponta. Estou aqui, com vocês, porque sei no fundo que essas mãozinhas se estendem a vocês também nessas manhãs. Agora o ritmo, o aconchego, a estrutura, o carinho da sala de aula ultrapassaram qualquer muro e se encontra, sobretudo, no núcleo familiar.

Encerro essas linhas com a canção "Encontros e despedidas", do Milton Nascimento. Desejo, profundamente, que tenhamos boa sorte e que possamos equilibrar Chronos e Kairós!